por
Neurivaldo Campos Pedroso Junior *

Poderíamos iniciar refletindo acerca das razões que nos levaram a inserir o filme
Closer – Perto Demais, do diretor Mike Nichols, numa Semana que se intitula
Letras no Cinema. A reflexão sobre a escolha impõe-se com uma certa intensidade porque o filme não aborda, em um primeiro momento, nenhum tema que nos seja próximo, sobretudo se considerarmos que o filme "fala" sobre relacionamentos. Mas este é um primeiro sentido que podemos atribuir ao
Closer. Talvez, pudéssemos pensar com Roland Barthes e afirmar que este é o sentido óbvio do filme, aquele que
vem à frente. Todavia, uma análise mais detalhada poderá acercar-se do sentido obtuso, daquilo que
é ou está velado.
Eis a nossa intenção.
Ressaltamos que pretendemos aqui apenas propor um trajeto ou uma leitura do filme, sem que, com isso, as outras sejam consideradas menores ou sejam invalidadas. Acreditamos que a única atitude coerente diante de um filme como
Closer - Perto Demais, é aceitar a multiplicidade de leituras que ele proporciona.
Comecemos nosso trajeto.
Sim, o filme é, também, sobre relacionamentos. Mas Nichols parte desses para elaborar uma reflexão mais ampla acerca do sujeito contemporâneo e daquilo a que convencionamos chamar de Real. Dois aspectos poderiam ser destacados para exemplificar nossa posição. Primeiro: a constante recorrência à palavra "Estranho/Desconhecido"; Segundo: a atitude da personagem Alice Ayers/Jane Jones de "mentir" sobre o próprio nome, criando uma nova identidade e fundando, dessa forma, uma outra realidade, que ela pretende mais satisfatória.
Tomemos a primeira frase do fime: "Hello Stranger", pronunciada pela personagem Alice/Jane e que, para nós, carrega em si muito da mensagem do filme, a saber, o Outro será sempre para nós esse Estranho ou Desconhecido e, muitas vezes, na busca incessante de entender ou de compreender o Outro, nos deparamos com uma busca ainda mais árida: a do Auto-Conhecimento. No filme, vemos que o conhecimento de si passa, necessariamente, pelo conhecimento do Outro e vice-versa. Todavia, assim como o Outro não se deixa entrever na sua totalidade (projeto impossível como já nos ensinou Jacques Lacan), o Eu também sofre dessa mesma doença da alma, conscientizando-se da sua incompletude. Resulta disso, que o sujeito contemporâneo terá, então, na errância, a sua marca registrada, como bem podemos notar no
vaguear pelo desconhecido e pelo insólito a que estão imersas as quatro personagens do filme e que acabam, muitas vezes, no terreno da imprevisibilidade tanto na vida quanto no amor. Lembrem-se, por exemplo, que o Dr. Larry (Clive Owen) intitula-se um "observador clínico do circo humano", mas foi incapaz de perceber o insucesso de seu casamento com Anna.
Devemos fazer uma parada e lembrarmos de Sigmund Freud que, no clássico
Das Unheimliche (O Estranho), já havia observado, com a sua peculiar lucidez teórica, que o estranho se caracteriza justamente por algo que é familiar mas que se torna subitamente e inexplicavelmente estrangeiro, estranho. Assim, o que reconhecemos no Outro são, na verdade, traços de nossa própria personalidade. Diante disso, não nos surpeende que tanto a palavra quanto a idéia de "Stranger" (optamos por manter a palavra na língua inglesa pois ela nos dá, ao mesmo tempo, as idéias de estranho, de desconhecido e de estrangeiro, conceito este que retomaremos mais adiante) apareçam inúmeras vezes no decorrer do filme, intitulando, inclusive, a própria exposição da fotógrafa Anna Cameron (Julia Roberts). O que consideramos significativo, haja vista que Anna, na qualidade de fotógrafa, demonstra interesse por pessoas desconhecidas e pretende capturar, pela lente da objetiva, algo que lhes seja único, particular. Mas o que vemos, na verdade, é que como em um jogo de espelhos, o que a fotógrafa capta são traços de sua própria subjetividade. Vale mencionar, nesse sentido, a tristeza velada e a melancolia que parecem cobrir todos os "retratados" da exposição
Strangers, o que só corrobora com o "retrato" de Anna feito pelo Dr. Larry, a de uma pessoa triste e depressiva, que não se permite ser feliz.
Seguindo por essa linha de raciocínio, a recorrência da palavra/idéia de "Stranger" ao longo do filme, talvez pudéssemos afirmar que o diretor, Mike Nichols, nos faz ver, parafraseando Julia Kristeva, que somos "Estrangeiros para nós mesmos".
Mas o Estrangeiro é também o lugar no qual podemos assumir uma outra identidade, criando, dessa forma, uma nova realidade. Talvez, mais satisfatória, senão, menos angustiante. Eis o que faz a personagem de Natalie Portman - Alice Ayers/Jane Jones. Muitos são aqueles que não a vêem com bons olhos, pois, como afirmam, é a única que mente sobre o próprio nome, escondendo sua identidade verdadeira (neste ponto poderíamos lembrar que no mundo moderno, com suas constantes guerras, exílios e expatriações, não é incomum que pessoas assumam uma nova identidade, não apenas quando no
Estrangeiro) . Mas eis outra originalidade do filme, sob nosso ponto de vista, o próprio questionamento daquilo a que prosaicamente denominamos chamar de real, já que este passa a depender do ponto de vista adotado. Talvez por isso, o "novo mundo" ou a "nova identidade" de Alice Ayers/Jane Jones seja tão "real" ou tão "verdadeiro" quanto o são os de Dan, Anna e Larry, pois, apesar dessa pequena mentira, acreditamos que ela seja mais verdadeira de todos e a que tem a melhor percepção da realidade, como bem podemos observar no comentário que faz sobre a exposição de Anna: "É uma mentira. Um bando de estranhos tristes, lindamente fotografados. Todos os ricaços babacas que apreciam arte dizem que é lindo, porque é o que querem ver. Mas as pessoas na foto estão tristes e sozinhas. Mas as fotos fazem o mundo parecer mais belo. Então a exposição é reconfortante, uma mentira. E todos amam uma grande mentira".
Gostaríamos de finalizar evocando tanto a passagem acima quanto a indagação que abre este texto, para mostrarmos que neste
punctum, para usar uma expressão barthesiana, o filme nos fala de perto, pois, sabemos nós o quanto o mal-estar ou a insatisfação diante do mundo é mola propulsora para que artistas realizem suas obras, tentando, dessa forma, suprir o que falta no
Real.
Para suprir essa falta, sentida no Real, alguns escrevem, outros pintam, há os que fotografam e há aqueles que inventam novas identidades.
* O Autor é doutorando em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS.