Quarta-feira, Julho 19, 2006

Caramujo-Flor

por Iraci Menegheti



Esse filme foi pensado e realizado por Joel Pizzini a partir do livro Gramática Expositiva do Chão (1969), edição que reuniu livros de Manoel de Barros.
Quando o filme foi apresentado, no final da década de 80, seu diretor o definiu como “um projeto estético inacabado, rascunho de sonho, veia aberta, jorro incessante, trecho impresso da utopia”, e em entrevista, dez anos depois, ele afirma que Caramujo-Flor é “um filme úmido, com espaço para a expressão do sentimento sensorial; nele há lirismo assumido”.

Após ver o filme, o poeta Manoel de Barros declarou: “Estou certo de que Joel quis falar de minha poesia antes de mim. O filme quis expressar por imagem uma escrita poética. Joel quis dar uma idéia de minha linguagem e não de minha vida. Minha vida não tem nada com jacarés nos trilhos de uma estação, mas a minha linguagem tem. Um jacaré sobre trilhos é tão insólito como renovar as mesmices. Penso que Joel quis mostrar isso. Botou as lesmas lentas e gosmosas dentro de uma casa, mas o lugar das lesmas lentas e gosmosas é subindo pelo muros leprosos das casas. O filme tem muito de minha arte e nada de minha vida. Ainda bem.”

O filme tem 21 minutos, é composto de 30 segmentos e 122 cenas. Foram selecionados versos e poemas de obras escritas de 1937 a 1989 e são apresentados sem que se perceba uma ordem ou período em que foram escritos.

No início do filme aparece o rosto de Antônio Houaiss e os poetas Geraldo Carneiro, Fausto Wolff e Chacal e depois se apresentam os atores sul-matogrossenses Rubens Corrêa, Aracy Balabanian e os cantores Ney Matogrosso, Almir Sater e Tetê Espíndola.

Da poesia de Manoel de Barros, Joel Pizzini identifica duas personas centrais: uma é o “Cabeludinho”, um personagem sinuoso, um lúdico menino do mato que sai do Pantanal para o mar. A outra é o andarilho vagabundo, com um sentido um pouco mais trágico. A dimensão sonora acontece com a interpretação de Tetê Espíndola.

Todas as falas dos artistas e músicas são poesias de Manoel de Barros e há também um momento em que aparece Rubens Corrêa falando uma auto-biografia do poeta.

O título do filme, Caramujo-Flor, foi tirado de um poema do livro Arranjos para Assobio (1982), e a sua poética é feita pelos versos: “Minhocas arejam a terra, poetas a linguagem”, do Livro de Pré-Coisas (1985), revelando a escolha pelo trabalho de transformar as convenções gramaticais e optar pela elaboração da arte, pelos seres da terra.